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Editora: 12min
O "Cockroach Janta Party", traduzido no Brasil como Partido das Baratas, não é um partido político. É um movimento juvenil criado em maio deste ano na Índia, organizado principalmente pelas redes sociais, sem estrutura partidária e sem candidatos, que em poucos meses passou a levar dezenas de milhares de pessoas às ruas de Nova Délhi e de outras cidades.
Isso importa porque a Índia é a maior democracia do mundo, com cerca de 970 milhões de nomes nos cadastros eleitorais antes das revisões recentes, e porque o primeiro-ministro Narendra Modi está no poder há 12 anos. O que o movimento cobra deixou de ser só a correção de um escândalo educacional e passou a incluir a forma como o país organiza o direito de votar.
Em julho, essa pressão arrancou a renúncia de um ministro, algo raro no governo Modi. Em outubro, o mesmo movimento voltou às ruas com outro alvo e encontrou uma resposta policial bem maior.
A origem do nome é literal. Durante uma audiência, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, comparou alguns jovens desempregados a "baratas" e "parasitas". Em resposta, Abhijeet Dipke, de 30 anos, estrategista de comunicação política formado pela Universidade de Boston, publicou na rede social X a provocação: "E se todas as baratas se unissem?"
A piada virou movimento. Em duas semanas, segundo reportagem do jornal britânico The Guardian, a página oficial do grupo no Instagram ultrapassou 22 milhões de seguidores, mais que a do partido governista, o Bharatiya Janata Party (BJP). O governo tentou bloquear as contas do movimento alegando segurança nacional, mas a medida não prosperou.
A cobertura dos grandes canais de TV indianos foi pequena no início, e os próprios manifestantes documentaram os atos com vídeos e memes. O cientista político Rahul Verma, do centro de estudos Centre for Policy Research, descreveu o caso à CNN como o "primeiro movimento impulsionado por falha administrativa" enfrentado pelo BJP, e por isso mais difícil de conter do que protestos de conteúdo ideológico.
O estopim foi o NEET, o exame nacional que seleciona candidatos aos cursos de medicina. Ele reúne mais de dois milhões de estudantes para cerca de 130 mil vagas, e famílias costumam comprometer suas economias com cursos preparatórios.
Em maio, o governo admitiu que as questões haviam vazado. Os resultados foram anulados e cerca de 2 milhões de estudantes tiveram de refazer a prova. Segundo a imprensa indiana, o cancelamento foi associado a casos de suicídio entre candidatos.
Os protestos começaram em junho e cresceram ao longo de julho, com ocupações, passeatas e greves de fome. O ativista Sonam Wangchuk passou 26 dias sem se alimentar e acabou retirado à força do acampamento pela polícia de Délhi e levado a um hospital público, após determinação judicial de monitoramento médico diário.
O ponto de virada foi 20 de julho, quando a polícia usou gás lacrimogêneo e cassetetes para dispersar uma marcha em direção ao Parlamento. Vários estudantes ficaram feridos, e a indignação aumentou. Partidos de oposição aderiram às demandas e interromperam os trabalhos do Parlamento por dias.
Em 23 de julho, Modi deu sua primeira resposta pública: anunciou tribunais de julgamento rápido para processar os responsáveis pelos vazamentos. "Nada é mais importante do que o bem-estar e o futuro de nossos jovens", escreveu no X. Manifestantes e oposição rejeitaram a medida e mantiveram a exigência central, a saída do ministro da Educação.
Dois dias depois, Dharmendra Pradhan renunciou. Em nota, afirmou respeitar "as aspirações, os sentimentos e as expectativas legítimas da juventude do país". Ministro desde 2014 e titular da Educação desde 2021, ele se tornou apenas o segundo ministro a deixar o cargo em meio a um escândalo desde que Modi chegou ao poder. Pralhad Joshi assumiu a pasta.
Segundo o ministro da Saúde, J.P. Nadda, o governo aceitou as reivindicações apresentadas: reformas no sistema de exames, retirada dos processos policiais contra participantes dos atos e compensação às famílias de estudantes que cometeram suicídio após os vazamentos. O movimento anunciou o fim das mobilizações, embora líderes tenham declarado que seguiriam cobrando as indenizações e medidas contra policiais acusados de uso excessivo de força. "Este não é o fim", disse Dipke ao deixar o acampamento.
O segundo foco é uma revisão nacional dos cadastros eleitorais, iniciada no ano passado, que convoca quase um bilhão de pessoas a apresentar documentos para manter o direito de votar. Nos últimos 12 meses, mais de 130 milhões de nomes foram excluídos, número superior à população do México. Cerca de 20 milhões saíram como supostamente mortos e cerca de 90 milhões foram classificados como "ausentes, transferidas e outras".
A Comissão Eleitoral afirma que o objetivo é retirar registros duplicados, pessoas falecidas e quem não cumpre os requisitos para votar, e em 2 de outubro determinou o cadastramento de novos eleitores e a reinclusão de pessoas que ficaram de fora. O governo nega as acusações. Para o porta-voz do BJP Pratyush Kanth, se os próprios partidos pediram no passado a remoção de registros falsos, não há motivo para tratar a depuração como suspeita agora.
Críticos nomeados discordam do método. Ashok Lavasa, ex-integrante da comissão, afirmou que revisões anteriores se baseavam em verificação presencial, de porta em porta, e que o processo atual transfere ao cidadão o ônus da prova, deixando parte do eleitorado à mercê de algoritmos e de erros em registros antigos. Reportagem da Folha, com apuração do The New York Times, registra que os 200 milhões de muçulmanos do país parecem ter sido atingidos de forma desproporcional, e que não surgiram provas contundentes de que a revisão tenha identificado um número significativo de estrangeiros.
O caso mais contestado é o de Bengala Ocidental, onde o BJP venceu a eleição estadual em maio após uma revisão que removeu cerca de 9 milhões de nomes. Em petições à Suprema Corte, partidos de oposição sustentam que o número de excluídos superou a margem de vitória em 82 das 207 cadeiras conquistadas pelo partido de Modi. Entre cerca de 100 mil recursos já julgados, a maioria foi considerada legítima.
Nos dias 2 e 3 de outubro, a polícia impediu reuniões em Nova Délhi e deteve manifestantes à força, entre eles o parlamentar independente Kapil Sibal e a presidente da All India Students' Association, Neha Bora. "Primeiro, retiraram pessoas da lista de eleitores e agora não estão nos deixando protestar contra isso", disse Bora à Reuters.
Em 10 de outubro, segundo a revista The Economist, a capital viveu uma das maiores operações de contenção de manifestações dos últimos anos, com drones, milhares de agentes, bloqueios à internet, 45 estações de metrô fechadas e cerca de 5 mil pessoas detidas, a maioria liberada no mesmo dia. Dipke e dois aliados foram detidos ao desembarcar no aeroporto e ficaram 24 horas sob custódia; em 14 de outubro, dois deles foram condenados a cinco dias de prisão por invasão de propriedade. Em 12 de outubro, a aliança de oposição liderada pelo Partido do Congresso reuniu dezenas de milhares de pessoas em marcha contra o que chama de roubo de votos.
O governo rejeita comparações com a Emergência de 1975 a 1977, período em que liberdades democráticas foram suspensas. O ministro Kiren Rijiju afirma tratar-se de manutenção normal da ordem pública. Gyanesh Kumar, chefe da Comissão Eleitoral e alvo dos pedidos de renúncia, não comentou os protestos, tem proteções constitucionais que dificultam sua destituição e mantém o respaldo de Modi.
As duas ondas compartilham a mesma base. A Índia tem mais de 360 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos, e o relatório "Estado do Trabalho na Índia 2026", da Universidade Azim Premji, aponta que quase 40% dos graduados com 25 anos ou menos estão desempregados. A taxa geral de desemprego aparece entre 4% e 7%, mas a maior parte dos trabalhadores está fora do setor formal e não é contabilizada.
Segundo Verma, os manifestantes são em boa parte jovens de classe média e classe média baixa, grupo que historicamente apoia o BJP, o que torna o descontentamento mais difícil de ignorar. Vizinhos da Índia, como Sri Lanka, Nepal e Bangladesh, passaram por crises políticas lideradas por jovens nos últimos anos.
Três sinais concretos dizem para onde isso caminha. O primeiro são os recursos ainda pendentes: quanta gente, entre os excluídos, consegue voltar ao cadastro. Em Bengala Ocidental, autoridades nomeadas pela Justiça autorizaram a reinclusão de 1,6 milhão de eleitores, mas a Comissão Eleitoral recorreu da medida. O segundo é a Suprema Corte, que ainda analisa as petições sobre as exclusões naquele estado, e a resposta do governo ao pedido de renúncia de Gyanesh Kumar. O terceiro é a próxima eleição estadual, prevista para o início do ano que vem: vale observar se ela será disputada com os cadastros revisados.
Há ainda o teste do próprio movimento. Em julho ele obteve uma renúncia ministerial e um acordo de reformas; em outubro enfrentou detenções em massa e bloqueios de circulação. Se a mobilização de rua se sustentar nesse cenário, a vitória de julho terá sido o começo de uma pressão continuada; se não, terá sido pontual. A próxima eleição nacional só ocorre em 2029.
Se você fosse acompanhar este assunto nos próximos meses, começaria pelos recursos dos eleitores excluídos, pelas decisões da Suprema Corte ou pelo que acontece nas ruas?
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